Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.
Em cinco meses, o mesmo ministro quebrou o sigilo de um blogueiro do interior, mandou a Polícia Federal na casa da fonte dele, defendeu a volta do diploma obrigatório na imprensa — e já tinha assinado a regra que pode cassar o diploma de candidato eleito por causa de vídeo de inteligência artificial.
Terça-feira, 18 de agosto. Primeira Turma do Supremo, TV Justiça no ar, julgamento de um pedido de direito de resposta contra a Globo. No meio da sessão, Alexandre de Moraes disse que talvez seja hora de o Brasil voltar a exigir diploma de quem faz jornalismo. E sugeriu um amortecedor para quem já está na profissão: uma "regra de transição".
Regra de transição. Guarda essa palavra aí.
O DOUTOR DO DIPLOMA DOS OUTROS
O homem que quer carteirinha para o repórter nunca precisou de uma para si.
Ele não é juiz de carreira. Não prestou concurso para a magistratura, não julgou em vara de interior, não subiu degrau nenhum de tribunal. Foi promotor, secretário de Justiça em São Paulo, secretário de Transportes, secretário de Segurança, filiado ao PSDB, ministro da Justiça do Michel Temer. E do gabinete de ministro foi direto para a cadeira do Supremo, em março de 2017, indicado pelo próprio Temer e aprovado pelo Senado.
Do ministério para o tribunal mais alto do país. Sem transição.
Quem chegou lá sem carreira agora quer exigir carreira dos outros. Esse é o Doutor do Diploma dos Outros.
A ESCADA
Novembro de 2025. O blogueiro maranhense Luís Pablo publica fotos e documentos sobre carros oficiais do Tribunal de Justiça do Maranhão usados pelo ministro Flávio Dino e por familiares. O tribunal e o Supremo respondem que os veículos fazem parte de um esquema institucional de segurança.
Março de 2026. A PF bate na porta do blogueiro. Celular, notebook, HD. Autorização assinada pelo Doutor do Diploma dos Outros, dentro do inquérito das fake news. Os aparelhos voltam em abril, depois de copiados.
11 de agosto de 2026. Com os dados na mão, a polícia vai atrás de quem falou. Busca e apreensão contra Raimundo Cutrim, delegado federal aposentado e ex-secretário de Segurança do Maranhão, apontado como a fonte. E contra o advogado do jornalista. Segundo a defesa, tudo a partir de denúncia feita pelo ministro Dino — que, no inquérito, não é investigado. É a "vítima". O Ministro-Vítima.
19 de agosto de 2026. Vem a público que o próprio relatório da Polícia Federal não aponta crime do jornalista. A PF escreve que, se alguém violou sigilo funcional, foi o agente público que entrou no sistema. Não o repórter que recebeu e publicou.
A PARTE QUE NINGUÉM LÊ EM VOZ ALTA
Luís Pablo não tem diploma de jornalismo. Tem registro profissional desde 2015 e continua na profissão graças exatamente à decisão que o Supremo tomou em 2009, por 8 votos a 1.
Quer dizer: o cerco começa num blogueiro sem diploma e termina, uma semana depois, numa sessão em que dois ministros defendem exigir diploma.
Uma coincidência acontece. Três, na mesma quinzena, começam a pedir explicação.
E O DIPLOMA DO SEU CANDIDATO
Agora a terceira ponta. Quando presidia o TSE, em 2023, Moraes já avisava que para quem usasse inteligência artificial para desinformar só havia uma sanção: cassação do registro e, se eleito, do mandato.
Virou norma. A resolução de propaganda que vale nesta eleição prevê que deepfake pode configurar abuso de poder e levar à cassação do registro ou do diploma de quem o povo elegeu. E nas 72 horas antes da votação nenhum conteúdo novo de IA com voz ou rosto de candidato pode circular — nem avisando que é IA.
Repara na palavra que aparece nas duas pontas desta história.
Diploma para o jornalista poder trabalhar. Cassação do diploma do candidato que ganhou na urna. E, no meio das duas, um homem que não precisou de diploma de juiz para decidir nenhuma delas.
A CARAVANA DE NOGUE — este grupo impávido, perspicaz e intemerato conferiu uma a uma as datas acima em decisão, relatório e sessão gravada. O inquérito corre sob sigilo. O que está escrito aqui é o que já é público.
EM CIMA DA MESA
Doutor do Diploma dos Outros: que concurso o senhor prestou para decidir quem pode ser jornalista neste país?
Ministro-Vítima: por que o carro nunca foi apurado e a fonte foi?
Senado Federal: até quando vai ser mais fácil abrir o celular de um blogueiro do que abrir uma pauta no plenário?
No Brasil de 2026 exigem diploma de quem escreve e cassam diploma de quem é eleito. O único que nunca precisou de diploma nenhum é justamente quem assina as duas canetadas.


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