Um morador de Juiz de Fora foi levado à delegacia neste sábado, 15 de agosto, suspeito de ameaçar o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro.
A mensagem foi publicada na quinta-feira, 13, nos comentários de uma página do Facebook que divulgava a agenda do candidato na cidade. O texto: "dessa fez deixa cmg". Acompanhado de emojis de faca.
A ameaça foi detectada pela Sala de Situação de Inteligência da Polícia Legislativa do Senado, que monitora riscos a parlamentares em campanha. O senador foi comunicado e formalizou representação criminal. As evidências digitais foram preservadas e o caso encaminhado ao Ministério Público de Minas Gerais.
Na sexta-feira, dados fornecidos pela Meta permitiram identificar o autor do comentário. A Justiça autorizou busca e apreensão, cumprida neste sábado com apoio da Polícia Civil de Minas. O material apreendido vai passar por perícia.
O suspeito foi identificado como Lauro Cesar Costa Junior. Segundo a polícia, ele tem oito registros policiais por agressão, lesão corporal, ameaça e vias de fato. A equipe do senador informou que há ainda registros de violência doméstica contra ex-companheiras e ameaça de morte contra um vizinho.
Quatrocentos metros
E aqui está o número que muda o tamanho dessa notícia.
O homem mora a aproximadamente 400 metros do local onde a concentração do ato está marcada.
Quatrocentos metros é uma caminhada de cinco minutos. É a distância entre a sua casa e o mercado. Não é uma ameaça digital vinda de um perfil anônimo no outro lado do país. É o vizinho da esquina.
A motociata está marcada para segunda-feira, 17, com concentração às 10h no Aeroporto da Serrinha. O trajeto termina no ponto exato onde Jair Bolsonaro foi esfaqueado.
O precedente
Em 6 de setembro de 2018, no centro de Juiz de Fora, durante um ato de campanha, Jair Bolsonaro levou uma facada no abdômen. A lâmina perfurou o intestino. Vieram dezenas de procedimentos médicos e cirurgias de grande porte ao longo dos anos seguintes, para corrigir aderências e obstruções.
Não é passado distante. É a mesma cidade, a mesma disputa presidencial, a mesma família, e agora um comentário que diz "dessa vez deixa comigo".
A expressão "dessa vez" não é enfeite. Ela pressupõe uma primeira vez. E todo mundo naquela cidade sabe qual foi.
O limite
Existe uma linha, e ela é simples de enxergar quando se quer enxergar.
Xingar político é liberdade de expressão. Chamar de ladrão, de incompetente, de qualquer coisa que se queira — é o preço de ocupar cargo público, e ninguém deveria ser processado por isso.
Escrever "dessa vez deixa comigo" com desenho de faca, embaixo do anúncio de um evento que acontece a 400 metros da sua casa, na cidade onde o pai do candidato foi esfaqueado, não é opinião. É outra categoria de coisa.
E aqui vale registrar o que funcionou, porque é raro: uma unidade de inteligência viu o comentário em 24 horas, a plataforma entregou os dados, a Justiça autorizou a medida e a polícia cumpriu no dia seguinte. Quarenta e oito horas do post até a delegacia.
Fica então a pergunta institucional que este veículo faz e não vê ninguém fazendo: por que essa velocidade não existe para todo mundo? Quantas ameaças de morte contra pessoas comuns — a mulher que denuncia o ex, o vizinho ameaçado — ficam meses sem resposta enquanto o autor continua morando a 400 metros?
A vida real
Segunda-feira, 10h, Aeroporto da Serrinha.
Vai ter gente levando criança. Vai ter aposentado em cima da moto emprestada. Vai ter camelô vendendo bandeira. Gente comum que decidiu ir num ato político num dia de semana porque acredita em alguma coisa.
Essas pessoas não têm Polícia Legislativa. Não têm Sala de Situação. Não têm ninguém monitorando comentário nenhum para protegê-las.
Elas só vão estar lá. No mesmo lugar. Na mesma rua.
Em 2018, um homem entrou no meio da multidão com uma faca.
Em 2026, outro escreveu na internet que dessa vez era com ele. E mora na esquina.


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