"Pode-se acusar de tudo, menos de imprevidente." — Lauro Jardim, sobre Gilmar Mendes.
Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje!
Domingo, 13 de setembro de 2026. Manhã de jornal fino, Brasília ainda de pijama.
A coluna de Lauro Jardim, no Globo, publica uma nota de sete linhas. Sete linhas que valem mais do que muita capa.
Diz que o ministro Gilmar Mendes, decano do Supremo Tribunal Federal, enviou um advogado de sua confiança para conversar com o senador Flávio Bolsonaro. E que não foi uma vez só.
Não há nome do advogado. Não há data. Não há local. Não há teor das conversas. Nota de bastidor é sombra antes do corpo. Você não vê quem é, mas sabe que tem alguém em pé na sala.
E a coluna abre com uma linha que é elogio e diagnóstico ao mesmo tempo: o ministro pode ser acusado de tudo, menos de imprevidente.
O VERBO
Repare no verbo escolhido: preparar terreno.
Ninguém prepara terreno para o que já passou. Terreno se prepara para o que ainda vai ser construído. Você limpa, nivela, marca a estaca e espera o concreto chegar.
Ou seja: a nota não está falando do presente. Está falando de 2027. E é isso que a torna perigosa — não pelo que afirma, mas pelo que pressupõe.
O que ela pressupõe é que, dentro do Supremo Tribunal Federal, já existe gente fazendo conta sobre quem vai sentar na cadeira do Planalto no ano que vem. Fazendo conta e agindo de acordo. Tribunal não deveria ter time. Mas todo jogador sabe a hora de trocar de camisa antes do intervalo.
A SEMANA EM QUE ISSO SAIU
E agora encaixe a nota no calendário, porque é aí que ela ganha peso.
1º de setembro: cai o sigilo da Petição 16.662. O país lê 218 páginas sobre o celular apreendido de um banqueiro preso, o contrato de R$ 131,3 milhões e o contato salvo como "Alexandre de Moraes BRASILIA".
8 de setembro: afastado o diretor-geral da Polícia Federal.
9 de setembro: a Presidência do Supremo suspende os procedimentos que tratem de apuração envolvendo integrante da Corte.
12 de setembro, sábado à noite: Edson Fachin retira de André Mendonça a relatoria do caso e assume o processo.
13 de setembro, domingo de manhã: sai a nota dizendo que o decano está preparando terreno com o senador que aparece no segundo turno.
15 de setembro, terça: sessão extraordinária.
Sete dias. Um sigilo derrubado, um diretor afastado, um relator trocado e um decano de conversa marcada. Ninguém chama isso de coincidência sem corar.
O QUE NINGUÉM VAI DIZER NO JORNAL
Vou dizer eu.
O Supremo brasileiro aprendeu, ao longo de quarenta anos, uma habilidade que nenhuma faculdade de Direito ensina: ler pesquisa eleitoral.
Ministro não é eleito, não tem mandato, não presta contas em urna. Em tese, deveria ser o único ator do sistema totalmente indiferente ao resultado de outubro. Em tese. Na prática, é o mais atento de todos — porque o presidente eleito é quem indica os colegas que vão sentar ao lado dele pelos próximos vinte anos.
E, no meio disso, estão em jogo processos que atingem o entorno de um ex-presidente, processos que atingem colegas de toga e processos que atingem o governo. Tudo na mesma mesa. Tudo na mesma semana.
Quem conversa com os dois lados antes da eleição não está sendo imparcial. Está sendo precavido. E precaução, num juiz, tem outro nome.
O FREIO
O freio, de frente e curto.
Isso é nota de coluna, não é documento. Não tem nome de advogado, não tem data, não tem prova, e a própria coluna não registra manifestação das partes. Ministro do Supremo conversar com senador não é crime nem irregularidade em si — a cúpula do Judiciário recebe parlamentar, advogado e autoridade o tempo todo, e sempre recebeu.
E mais uma coisa, porque aqui não se vende profecia: as capas que estão rodando por aí já tratam o senador como presidente eleito. Ele não é. O Datafolha de sexta-feira, dia 11, deu 46% para Lula e 44% para Flávio Bolsonaro num eventual segundo turno, dentro da margem de erro de dois pontos. Isso é empate. E quem vende aposta como notícia queima a credibilidade que vai precisar em outubro.
E A CONTA
Sobra a pergunta, e ela não é sobre Gilmar Mendes, nem sobre Flávio Bolsonaro.
É sobre você.
Se um ministro precisa preparar terreno com quem pode ganhar, o que exatamente ele está plantando ali? Porque não é lei. Lei já está escrita. Não é prova. Prova está nos autos. Não é justiça — justiça não se negocia em conversa reservada por interposta pessoa.
O que se planta em terreno preparado é acordo. E acordo feito antes da eleição é sempre pago depois, com a moeda que você não escolheu e num caixa que você não fiscaliza.
O brasileiro entra na urna em outubro achando que decide o país.
Decide. Só que uma parte já foi combinada em setembro, num domingo de manhã, em sete linhas de coluna.
Eu sou Rogério Nogueira. E esse foi mais um fatídico NogNews.


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