"Segredo." Foi a única palavra que Davi Alcolumbre cuspiu na porta do Senado quando perguntaram o que tinha sido conversado ali dentro. Dezenove dias depois, o segredo saiu andando sozinho. E cheirou a podre.
Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje!
Terça-feira, 4 de agosto. Brasília. A casa não é de político. É de juiz. Alexandre de Moraes, vice-presidente do Supremo, põe a mesa. Chegam o presidente da República, o presidente do Senado e o ministro Cristiano Zanin — o ex-advogado particular do Lula que hoje senta na mesma Corte. Três horas de conversa. Nenhuma ata. Nenhuma pauta. Nenhuma câmera. Que assunto é esse que precisa de tanta parede?
No dia seguinte, perguntaram ao Senhor Segredo o que tinha rolado. Ele deu de ombros. "Segredo." A imprensa oficial batizou a noite de "reaproximação". De "trégua". De "jantar institucional". Nome bonito pra disfarçar o cheiro.
Neste domingo (23), a coluna do Lauro Jardim, em O Globo, contou a versão que ninguém queria ouvir. Segundo relatos que chegaram ao gabinete do ministro André Mendonça, um dos assuntos da noite era… o próprio Mendonça. Teriam conversado sobre como fragilizar o homem que hoje conduz os dois inquéritos mais quentes e mais perigosos do Supremo.
QUEM É O CONVIDADO QUE NÃO FOI CONVIDADO
Mendonça é o relator do caso do INSS — a máfia que raspava, mês após mês, o dinheiro de aposentado direto do benefício, sem pedir licença, sem vergonha, sem piedade. É o relator do caso Banco Master. E é o ministro que, nas últimas semanas, autorizou inquérito atrás de inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Ou seja: os três que estavam à mesa não estavam falando de um ministro qualquer. Estavam falando do juiz que investiga o filho de um deles.
A ESCADA
30 de julho. Mendonça autoriza a PF a investigar Lulinha por suspeita de tráfico de influência e corrupção no Ministério da Saúde.
4 de agosto. Mendonça autoriza o terceiro inquérito contra o filho do presidente. Na mesma terça-feira, à noite, o pai do investigado está sentado à mesa na casa de outro ministro do Supremo.
5 de agosto. Perguntado sobre o jantar, o Senhor Segredo responde: "Segredo".
14 de agosto. Pressionado, Mendonça vai a um podcast e promete imparcialidade. "Meu papel é ser imparcial", diz o ministro — como se a frase ainda tivesse algum peso depois daquela noite.
23 de agosto. O Globo publica que a mesa daquela noite tratou de como enfraquecer justamente ele.
Uma coincidência acontece. Cinco começam a pedir explicação. O resto do Brasil já sabe o que significa.
AGORA TEM UM PEDIDO EM CIMA DA MESA
O advogado constitucionalista André Marsiglia foi o primeiro a dizer em voz alta o que o país inteiro pensou lendo a coluna: Mendonça tem que abrir inquérito para investigar os três. Imediatamente. Por obstrução da Justiça.
Não é xingamento. É procedimento.
Porque combinar como enfraquecer o juiz que te investiga tem nome, tem tipo penal e tem rito. E quem decide se houve ou não houve não é o jantar. É o inquérito. É exatamente pra isso que ele existe.
A MESA JÁ TINHA MUDADO DE LUGAR ANTES
Não é a primeira vez que o nome do Senhor Segredo cruza o caso Master. Quando assumiu a relatoria, Mendonça desfez uma decisão do antecessor que tinha concentrado nas mãos do presidente do Senado os dados sigilosos do banqueiro Daniel Vorcaro. Traduzindo pro português do boteco: o relator tirou do Alcolumbre uma chave que o Alcolumbre tinha na mão. E alguém aí acha que o Alcolumbre gostou?
E o Anfitrião? O Anfitrião não é figurante da noite. É o dono da casa, o dono da toalha, o dono da hora de servir e o dono do silêncio que vem depois.
O QUE ISSO CUSTA A VOCÊ
O caso do INSS não é abstração de Brasília. É o aposentado que recebeu quarenta reais a menos e passou seis meses ligando pro 135 pra descobrir por quê. É a viúva que pagou mensalidade de um sindicato que ela nunca conheceu, nunca autorizou, nunca viu. O inquérito que apura esse desconto tem um relator — e esse relator, segundo a imprensa, virou assunto de jantar entre o pai do investigado, o presidente do Senado e dois ministros do Supremo.
Nada disso está provado. São relatos que chegaram a um gabinete. Ninguém no Planalto ou no Supremo abriu a boca até agora. Mas o encontro aconteceu. A data existe. O endereço também. E o silêncio é ensurdecedor.
E é justamente por não estar provado que se abre inquérito. Provado é o que sai dele.
EM CIMA DA MESA
Ao Anfitrião: onde termina o jantar entre "amigos" e começa a articulação política dentro da casa de um juiz? Essa fronteira está escrita em que placa? Pendurada na porta de quem? Ou a placa já foi retirada faz tempo?
Ao Senhor Segredo:
se o assunto era institucional, por que "segredo"?
Segredo de quem?
Contra quem?
Em favor de quem?
Ao relator: o senhor abriu três inquéritos contra o filho. Vai abrir um contra a mesa?
Se qualquer um de nós combinasse, num jantar, como enfraquecer o delegado do nosso caso, o inquérito estaria aberto antes da sobremesa.
O Brasil inteiro come de pé, no balcão, com o troco contado, o prato raso e a conta na mão.
Eles decidem o Brasil sentados. Com vinho. Com prato quente. E com o silêncio de quem sabe que o jantar nunca foi só jantar.
E agora o Brasil quer ver o inquérito.


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