Economia

O BRASIL VIROU FILA DE PORTA DE VARA DE FALÊNCIA

Em 48 horas, Casas Bahia e Marabraz levaram R$ 17,4 bilhões de dívida para a mesa do juiz

Redação NOGNEWS
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Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.

A loja que Samuel Klein abriu em 1952 diz na petição que vive a "pior crise financeira desde a fundação". Quem assina embaixo é o sócio que ninguém elegeu: o juro de 14%.

Sábado, 15 de agosto. 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo. A Marabraz protocola pedido de recuperação judicial em caráter de urgência: R$ 140,2 milhões, cinco empresas do grupo, mais de mil ações trabalhistas nas costas.

Domingo, 16, no fim da noite. Outra vara, mesma cidade. O Grupo Casas Bahia entra com o pedido dele: R$ 17,3 bilhões, nove subsidiárias juntas. Dois dias, duas redes de móvel e eletrodoméstico, uma só assinatura embaixo dos dois processos — o sócio de 14%, que não pôs um real em nenhuma das duas e leva a maior fatia do caixa das duas.

Não é acaso de fim de semana. O Brasil fechou 2025 com 977 processos de recuperação judicial e 2.466 CNPJs dentro deles, o maior número da série histórica da Serasa Experian.

O CARNÊ VIROU RÉU

A Casas Bahia inventou o crediário do brasileiro pobre. Agora ela é a devedora do carnê.

O balanço do segundo trimestre trouxe prejuízo de R$ 10,1 bilhões. No mesmo período de 2025 tinham sido R$ 555 milhões. Dezoito vezes maior. A auditoria EY se recusou a emitir opinião sobre as contas, citando incerteza sobre a continuidade da empresa.

Antes de ir ao juiz, a rede já tinha cortado na carne: 298 lojas fechadas em dois dias, 13 e 14 de agosto, quase 30% da rede. Cerca de 1,9 mil demissões pelos números oficiais; fontes do setor falam em até 3 mil. A ação fechou a segunda-feira valendo R$ 0,44. Quarenta e quatro centavos.

A ESCADA

Um caso é azar. Cinco começam a pedir explicação.

Março de 2026 — a Raízen, da Cosan com a Shell, negocia R$ 65,1 bilhões em recuperação extrajudicial. A maior da história do país.

Março de 2026 — o Pão de Açúcar leva cerca de R$ 4,5 bilhões para renegociar fora da Justiça.

Junho de 2026 — a inadimplência empresarial bate 9,1 milhões de CNPJs negativados, com R$ 232,9 bilhões em dívidas.

15 de agosto — Marabraz.

16 de agosto — Casas Bahia.

Cinco degraus, um andar só: o custo do dinheiro.

A LOJA QUEBROU COM O COFRE DO LADO

O caso da Marabraz é o retrato do país em uma frase. A família controladora mantinha os imóveis numa holding avaliada em torno de R$ 5 bilhões. Aqueles prédios nunca foram da loja — eram a garantia que fazia o banco dizer sim toda vez que a loja precisava de crédito.

Brigaram em casa. A garantia sumiu da mesa. E uma rede de 135 lojas foi ao juiz por R$ 140 milhões com R$ 5 bilhões em tijolo do lado.

Foi preciso juro de 14% para transformar uma briga de família em pedido de recuperação judicial. Com dinheiro barato, isso se resolve numa reunião. Com dinheiro caro, se resolve num cartório de falências.

Leitura da redação: juro alto não é praga do céu nem culpa do consumidor. É preço de governo que gasta mais do que arrecada e joga a conta no crédito de quem produz. O Banco Central aperta porque o Planalto solta. Quem paga a diferença é o lojista, o fornecedor e o caixa da loja da esquina.

QUEM PAGA A CONTA NÃO É O CREDOR — É VOCÊ

A carteira de crediário da Casas Bahia fechou junho em R$ 6,3 bilhões, e o carnê ainda responde por quase 16% das vendas. Traduzindo: o crédito que sobrava para o brasileiro comprar geladeira encolhe junto com a empresa.

Três mil famílias sem salário em agosto. O fornecedor pequeno, sem garantia, entra na fila dos últimos a receber. E o shopping da sua cidade fica com um vão escuro onde tinha uma loja.

Recuperação judicial não é falência, e as duas redes seguem de porta aberta — mas ninguém vai ao juiz de barriga cheia.

EM CIMA DA MESA

Ao governo: com Selic em 14%, quantas empresas ainda precisam entrar na fila para o gasto público virar assunto?

Ao Banco Central: qual é o prazo para o remédio parar de matar o paciente?

E ao brasileiro que trabalha: quando a próxima loja fechar, alguém vai dizer que foi culpa do capitalismo — de novo.

Em 2016 chamaram de recessão. Em 2026 estão chamando de reestruturação. O nome muda, a fila é a mesma.