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O HOMEM DA CANECA QUER O PALÁCIO

Ele berrou para salvar o amigo dos áudios. Da própria gravação, nunca falou.

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O HOMEM DA CANECA QUER O PALÁCIO
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Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.

"Foi uma declaração merda, mas isso não é roubar."

São Paulo. Segunda-feira, 7 de março de 2022. Uma live. Um homem de camiseta grita na direção da câmera, convoca a militância e arremessa uma caneca no chão.

O homem é Renan Antônio Ferreira dos Santos, coordenador do MBL. Hoje ele é presidente do Partido Missão e candidato à Presidência da República. Naquela noite, era só o Homem da Caneca — e o que ele defendia com aquele berro não era um projeto de país. Era o mandato de um amigo pego em áudio dizendo que refugiadas de guerra eram fáceis porque eram pobres.

Três dias antes, o Metrópoles havia publicado as gravações de Arthur do Val, cofundador do movimento, feitas na viagem que os dois fizeram juntos à fronteira da Ucrânia.

O NOME DELE ESTAVA NOS ÁUDIOS

E aqui está a parte que ninguém do movimento gosta de lembrar: o Homem da Caneca não é só quem defendeu. Ele é citado.

Nas mesmas gravações, Do Val afirma que o coordenador do MBL viaja ao leste europeu todo ano para o que chamou de "tour de blonde". Dito em tom de deboche, entre amigos, sobre mulheres.

Não há processo por isso. Não há denúncia por isso. É fala de terceiro, em áudio privado, sem documento por trás — e é assim que fica escrito aqui, porque matéria que vai além do papel é a que o advogado do outro lado imprime.

O documento é outro. E é pior.

A GRAVAÇÃO QUE É DELE

Setembro de 2021. Veio a público uma gravação em que o próprio Renan Santos diz que, se fosse barrado num bar, estupraria uma mulher.

Leia de novo, devagar: estupraria uma mulher.

A defesa dele foi essa: a gravação era de 2018, foi brincadeira entre amigos, ele estava alcoolizado.

Guarde os três argumentos. Era antigo. Era brincadeira. Era bebida.

São exatamente os três argumentos que a direita passou dez anos dizendo que não valiam para ninguém.

A ESCADA

2018 — data que ele mesmo aponta como origem da gravação.

Setembro/2021 — a fala vem a público. Explicação: brincadeira, bebida.

Fevereiro/2022 — viagem à fronteira da Ucrânia ao lado de Arthur do Val.

4 de março/2022 — Metrópoles publica os áudios. O nome dele aparece dentro deles.

7 de março/2022 — a live. O berro. A caneca. "Isso não é roubar."

12 de abril/2022 — o Conselho de Ética da Alesp aprova o pedido de cassação.

20 de abril/2022 — Do Val renuncia. Perde o mandato assim mesmo.

2026 — Do Val cai. O Homem da Caneca sobe: presidente de partido e candidato à Presidência.

Um perdeu tudo. O outro está no topo da chapa.

O QUE ELE ESCOLHEU DIZER

Repare no que não aconteceu naquela live.

Ele não disse que a fala do amigo era inaceitável e ponto. Não pediu desculpa às mulheres ucranianas. Não afastou ninguém.

Ele escolheu a única frase que interessava: isso não é roubar.

Leitura da redação: essa é a régua moral que ele leva para a urna em outubro. Corrupção é crime. Mulher é detalhe. E quem cobrar vira "vagabundo se movimentando".

O QUE ISSO CUSTA PRA VOCÊ

A Presidência da República não é um cargo de opinião. É a caneta que assina a política nacional de segurança pública — inclusive a que protege mulher que apanha, mulher que denuncia, mulher que espera medida protetiva que não sai.

Quem vai assinar essa caneta é o homem que já gravou uma frase sobre estuprar uma mulher e resolveu no grito, dizendo que era piada.

E ele é o mesmo que promete peitar o PCC.

EM CIMA DA MESA

Ao Homem da Caneca: em que momento, entre 2021 e hoje, o senhor pediu desculpa a alguma mulher — sem a palavra "brincadeira" na frase?

Ao Partido Missão: qual é a regra interna do partido para uma gravação dessas? Existe alguma? Ou a regra é a da live — que só vale se for roubo?

Ao eleitor de igreja que ainda vai decidir o voto: o senhor viu esse vídeo antes de decidir, ou vai ver depois?

A verdade não tem partido.