Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.
Domingo, 23 de agosto. Morumbi, zona sul de São Paulo. Oito da noite.
A Band acendeu a luz do estúdio que abre a temporada de debates presidenciais há quase quarenta anos. Convidou seis. Apareceram três: Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury. Os outros três lugares ficaram no palco do mesmo jeito. Regra da casa: quem falta sem justificativa tem o púlpito mantido no cenário. Vazio. Iluminado. Filmado.
Treze nomes disputam a Presidência da República. Três foram debater.
"PARA OUVIR BOBAGEM"
O primeiro púlpito vazio tem dono e tem frase. No fim de julho, no podcast Inteligência Ltda., o presidente Luiz Inácio Lula da Silva avisou que não iria a debate "para ouvir bobagem" e que antes avaliaria o "nível" dos encontros. Avaliou. Reprovou. Não reservou nem tempo de preparação na agenda de campanha.
E no domingo, no mesmo horário em que a Band chamava o nome dele, o homem que não ouve bobagem estava na Record, entrevista exclusiva, contando que a conversa dele com Trump é "muito civilizada, muito respeitosa".
Então o problema nunca foi a câmera. Foi quem estava do outro lado dela.
Diante de jornalista escolhido, ele fala. Diante de adversário com direito de resposta, ele tem agenda.
O CARONA
O segundo púlpito vazio funciona por espelho. A campanha de Flávio Bolsonaro trabalhava com uma regra só: ele vai aonde Lula for. Lula não foi. Ele não foi. Horas depois, pela internet, o senador anunciou que "vai debater com quem está destruindo o Brasil".
Tinha um púlpito com o nome dele. No meio do palco. A metros do lugar reservado para o homem que ele diz querer enfrentar. Bastava atravessar o estúdio e falar sozinho para o país inteiro, sem contestação, em rede nacional.
Preferiu marcar o encontro para depois.
A ESCADA
Fim de julho: o presidente diz no podcast que não vai a debate ouvir bobagem.
Semana do debate: a campanha do PT informa a emissora que ele não comparece.
Mesma semana: a campanha do PL repete que o senador só entra em debate com Lula.
Domingo, 12h01: Romeu Zema manda nota à imprensa e cai fora também — porque os dois primeiros colocados caíram fora.
18h: Renan Santos chega ao estúdio exibindo fraldas com o nome dos dois ausentes.
20h: Caiado chama os faltosos de "fujões". Augusto Cury ameaça não participar, volta atrás e entra.
Durante o programa: Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD e candidato a vice na chapa de Caiado, é flagrado cochilando na plateia enquanto o próprio candidato falava.
Em cada câmera do estúdio, uma colinha de papel com foto 3x4 dos três presentes. Nem o cinegrafista sabia quem era quem.
O JOGO DA VERGONHA
A comparação não é nossa. A coluna de Igor Gadelha, no Metrópoles, resgatou Alemanha 1 x 0 Áustria, Copa de 1982: o placar que classificava os dois e eliminava a Argélia. Ninguém precisou combinar nada em voz alta. Bastou os dois entenderem que empate servia.
Domingo, o placar era 48,1% a 42,9% no segundo turno, pesquisa Futura/Apex. Cinco pontos separam o primeiro do segundo. Quem lidera não arrisca. Quem está atrás não quer arriscar sozinho.
Deu 0 a 0. E os dois campeões estavam fora do estádio.
QUEM PAGA A CONTA DO PÚLPITO VAZIO
O eleitor ligou a televisão no domingo à noite. Ele quer saber quem vai mandar no preço do arroz, no imposto que some do contracheque, na conta de luz que chega maior todo mês. Ligou. Esperou. Assistiu. Desligou.
Recebeu três cadeiras vazias e um vice dormindo.
Faltam 41 dias para 4 de outubro. Debate é o único lugar da campanha onde o candidato responde sem edição, sem assessor no ouvido, sem corte de vídeo. É o único lugar onde a pergunta chega inteira. Até aqui, os dois favoritos entregaram ao brasileiro exatamente zero minuto disso.
Não é falta de tempo. É cálculo. Quem está na frente não ganha nada explicando.
EM CIMA DA MESA
Ao homem que não ouve bobagem: qual é o "nível" exigido para o senhor explicar ao país o que já explicou ao podcast, à Record e ao presidente americano?
Ao candidato de carona: se o Brasil está sendo destruído, por que o senhor esperou o destruidor marcar a hora?
No dia 4 de outubro tem um púlpito com o seu nome. Esse não pode ficar vazio.
A VERDADE NÃO PEDE LICENÇA


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