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O MUSO E A MUSA

O grupo de WhatsApp do filho do presidente foi batizado com o nome de um bicho que parece rato — e a sugestão do nome, diz a PF, partiu dele

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O MUSO E A MUSA
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"Ou a gente vai ficar milionário ou vamos nos f… grande."

Roberta Luchsinger, em mensagem que hoje está dentro de um inquérito no Supremo.

Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.

Um bilhão de reais em canabidiol. Cento e sessenta e sete mil em boletos de cartão. Nove mil e duzentos em diamantes. Vinte mil dólares por cabeça numa viagem à África. E um apelido que eles mesmos escolheram.

Musaranho é um mamífero pequeno, de focinho comprido, que parece um rato.

Foi esse o nome que a turma escolheu para o grupo de WhatsApp onde discutia negócios com o governo federal. Segundo o relatório da Polícia Federal, a sugestão veio do filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva.

No grupo, ele e Fernando Bittar eram os **Musos. Roberta Luchsinger era a Musa.

Não fomos nós que batizamos. Foram eles.

Então é assim que esta redação vai chamar daqui pra frente. O MUSO. A MUSA. E, quando for a turma inteira: OS MUSARANHOS.

A PF NÃO ESCREVEU "AMIZADE". ESCREVEU "NÚCLEO"

O documento que fecha a investigação não usa meia palavra. Os delegados concluíram que existe um núcleo de atuação permanente e coordenada formado por Roberta, pelo filho do presidente e por Fernando Bittar, voltado a levar interesses privados até agentes e órgãos da Administração Pública Federal.

Núcleo. Permanente. Coordenado.

E dentro dele, um papel bem definido para o Muso. A própria Musa explicou a um interlocutor como funcionava: o Fábio não faz nada, só entra em campo quando precisa, tem que se preservar.

A PF traduziu isso na linguagem dela: o filho do presidente aparece de forma reiterada como figura de elevada relevância, mesmo adotando postura de menor exposição. É citado como referência decisória nos projetos. É apontado como beneficiário indireto de articulações conduzidas por terceiros em nome dele.

Em português de boteco: quem aparecia era a Musa. Quem valia era o sobrenome.

O SOBRENOME NÃO PRECISA ENTRAR NA SALA. BASTA SER MENCIONADO.

O BILHÃO QUE IA SAIR DO SUS

O negócio da vida deles tinha nome: canabidiol.

O Careca do INSS — Antônio Carlos Camilo Antunes, que antes de virar o rosto do escândalo das aposentadorias já vinha do ramo farmacêutico — mirava um contrato de mais de 1 bilhão de reais para vender medicamento à base de cannabis ao Ministério da Saúde.

Para o plano andar, faltavam duas coisas: mudar regra e vencer resistência política. A Musa se ofereceu para as duas. Ela mesma descreveu o método a um interlocutor: trabalhava a política via Palácio, era boa de costura política.

Contratada como consultora do Careca, ela acionou o Muso para acelerar a regulamentação. Depois era só convencer o ministério a contratar a empresa do lobista.

O dinheiro vinha antes do contrato. Segundo a PF, o Careca repassou 1,5 milhão de reais à consultoria da Musa. Numa das transferências, ao explicar a um interlocutor para quem o valor ia, escreveu que era para "o filho do Rapaz".

O Rapaz é o presidente. O filho do Rapaz é o Muso.

A ESCADA

Degrau por degrau, com data. Sem data, não entra.

29 de junho de 2023. A Musa avisa o Muso que Kalil Bittar — irmão de Fernando e também sócio dele — estaria vendendo o nome do filho do presidente para fechar contrato na Telebras, estatal então comandada por Frederico de Siqueira, hoje ministro das Comunicações. O Muso responde perguntando se já desmentiram.

23 de janeiro de 2024. No grupo Musaranhos, a Musa chama os "musos lindos" para o expediente.

21 de janeiro de 2024. Ela conta a um empresário que Lula lhe teria oferecido cargo no governo e que recusou, porque preferia ficar onde estava: na sociedade com Fábio e Fernando. Explica o motivo com todas as letras — não está em cargo nenhum e anda onde quer. Na mesma noite, projeta o ano: quer 100 milhões. E emenda: é modesta.

6 de março de 2024. Ela avisa que pousou em Brasília e vai ao gabinete de Swedenberger Barbosa, o Berger, então secretário-executivo do Ministério da Saúde. O Muso responde mandando ir com tudo. A Musa não disfarça o objetivo: precisavam de 100% do Berger.

Ainda em 2024. Quem marcou essa reunião, segundo a PF, foi Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola — chefe de gabinete do presidente da República. Depois do encontro, ele recebeu a minuta do documento que liberava a produção dos medicamentos.

Fevereiro a novembro de 2024. No mesmo período, a Musa começa a pagar as contas pessoais do chefe de gabinete do presidente. Total: 217.098 reais.

13 de maio de 2024. Ela combina com Marcola colocar o Fábio em cima do Berger. O chefe de gabinete responde "blz".

Abril de 2025. Estoura a Operação Sem Desconto. Careca preso. Musa investigada.

Ainda em janeiro de 2025. Antes de tudo desabar, a Musa escreve que precisa destravar os negócios logo, porque tem que tirar o Fábio e a família do país até junho.

Meados de 2025. O Muso se muda para Madri.

Início de 2026. Mendonça autoriza a quebra do sigilo telemático da Musa. A PF entra na nuvem.

30 de julho de 2026. O Supremo autoriza a investigação de tráfico de influência e corrupção.

A CONTA DO CHEFE DE GABINETE

Aqui o negócio desce um degrau e fica difícil de olhar.

Os 217 mil reais que a Musa pagou não foram um cheque redondo. Foram boletos, um por um, do jeito que qualquer trabalhador paga: fatura de cartão de crédito do Banco do Brasil, 95.783 reais. Consórcio, 48.038. Financiamento do carro, 36.537. Um boleto sem identificação, 2.539. Um PIX de 25 mil.

E 9.200 reais em joias. Um par de brincos e um pingente de diamantes, com que o auxiliar do presidente presenteou a esposa.

O homem que recebia esses boletos despachava na antessala do presidente da República. Cuidava da agenda. Ouvia conversa fora do roteiro oficial. Chegava a atender o celular do presidente.

QUEM PAGA O BOLETO DO PORTEIRO COMPRA A PORTA.

Marcola foi exonerado em julho, por ordem do presidente. Ele diz que tudo foi empréstimo pessoal, já quitado, e que a demissão não teve nada a ver com isso. A Musa confirma a versão do empréstimo. Até onde se sabe, ele não é investigado neste caso.

OS TENTÁCULOS

Não parou na Saúde.

Na Dataprev — a estatal que processa os dados dos aposentados do INSS — a turma mirava derrubar travas tecnológicas que dificultavam desconto em folha. A Musa escreveu a um empresário perguntando se estava tudo certo por lá ou se precisava apertar Carlos Gabas, ex-ministro da Previdência.

Na Telebras, brigaram entre si pela mesma teta.

E o dinheiro circulava em mala. Segundo o inquérito, a Musa instruía o próprio motorista a entregar dinheiro vivo a diferentes destinatários. Numa viagem à África que ela organizou e bancou — 20 mil dólares por pessoa —, o Muso perguntou se tinham grana para bancar aquilo e completou: quem cuida das finanças dele é ela.

Em outro diálogo, animado com a perspectiva de lucro, resumiu o momento com um "coisa boa paporra".

Todas as mensagens dele tinham sido apagadas. Voltaram por software da PF.

E O QUE ISSO CUSTA PRA VOCÊ

Você vai ler tudo isso e achar que é briga de rico em Brasília.

Não é.

O dinheiro que financiou essa mesa nasceu do desconto que apareceu sozinho no contracheque do seu pai. A Operação Sem Desconto apurou 6 bilhões de reais tirados de 4 milhões de aposentados. Foi o Congresso inteiro fazer CPMI e a CPMI acabou sem entregar nada.

O bilhão da cannabis não era negócio de empresa com empresa. Era compra do SUS. Era a sua fila.

A trava da Dataprev que eles queriam derrubar existia justamente para dificultar desconto em folha de aposentado.

Enquanto isso, o Muso mora em Madri com a família, em condomínio de aluguel estimado em 5 mil euros — 30 mil reais por mês.

Ninguém foi condenado, e é bom que se diga. O presidente não está indiciado nem é alvo da investigação; questionado, diz que o filho jura inocência e que, se tiver alguma coisa, vai pagar o preço. O advogado do Muso nega que o cliente tenha relação com negócios envolvendo a administração pública e afirma que ele carrega o peso do sobrenome — que, se fosse outra pessoa, o inquérito já estaria arquivado. A Musa reclama de ter virado alvo principal.

Um professor de direito administrativo da USP marcou a linha para quem ainda tem dúvida: dizer a um parlamentar que uma lei é ruim é lobby, e lobby é legítimo. Cobrar 1 milhão para convencer o irmão ministro a decidir a favor de alguém é outra coisa — e essa outra coisa tem nome no Código Penal.

EM CIMA DA MESA

Ao Muso: o senhor sugeriu o nome do grupo. Explique ao Brasil por que a turma que negociava com o governo do seu pai se batizou com o nome de um bicho que parece rato.

À Musa: a senhora escreveu que ia ficar milionária ou se dar mal. Com o dinheiro de quem?

Ao homem da antessala: o senhor diz que foi empréstimo. Então responda o resto: por que o credor tinha que ser justamente a lobista que precisava da porta que o senhor abria?

Ao presidente: o senhor disse que se tiver alguma coisa alguém paga o preço. O chefe do seu gabinete recebeu boleto pago por lobista durante nove meses, dentro do seu palácio. Não pergunto se o senhor sabia. Pergunto quem estava olhando.

Ao eleitor: falta pouco para outubro. Essa mesma gente vai bater na sua porta pedindo voto.

Musaranho é bicho pequeno. Come o dia inteiro e nunca enche.

O Estado cresce quando VOCÊ empobrece.

TRIBUNAL DO LEITOR

Agora, decida você mesmo.

Depois de analisar os fatos apresentados nesta matéria, qual é o seu veredito?

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