Não houve declaração. Houve decisão. Dois dias antes de o país descobrir que seu nome tinha virado sobremesa no jantar do Anfitrião, o ministro André Mendonça mandou a Polícia Federal caçar quem vaza os autos do caso Lulinha — e escreveu, preto no branco, que o dever de guardar sigilo é de quem tem acesso oficial, não do jornalista.
Recado curto.
Endereço conhecido.
Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje!
Neste domingo (23), o Globo publicou, na coluna de Lauro Jardim, que na noite de 4 de agosto, na casa do ministro Alexandre de Moraes, o presidente da República, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, e o ministro Cristiano Zanin teriam confabulado sobre formas de fragilizar justamente Mendonça — relator do caso INSS e do caso Banco Master, os dois inquéritos mais pesados do Supremo hoje.
Três horas. Sem ata. Sem pauta. Sem câmera. Nenhum dos quatro confirmou o teor, e a coluna se apoia em relatos que chegaram ao gabinete do ministro — o encontro, esse ninguém nega.
No dia seguinte, perguntaram ao Senhor Segredo o que tinham conversado. Ele deu de ombros: “Segredo.” Chamaram de “reaproximação”. De “trégua”. De “jantar institucional”. Três nomes bonitos para um encontro que ninguém quis filmar.
Hoje o cardápio vazou. A conta é longa.
A MESA, O PRATO E O GARÇOM
Quando quem julga senta à mesa com quem é julgado, o prato principal vira o ausente. Mendonça não estava na casa do Anfitrião. Estava no menu.
E olha quem passava o sal.
O Anfitrião foi mencionado no caso Master por causa de um contrato de R$ 129 milhões entre o banco e a advogada Viviane de Moraes — a esposa dele. O Convidado tem o filho mais velho, Fábio Luís, o Lulinha, investigado no rastro do INSS. O Senhor Segredo aparece citado nos dois escândalos. Todos os três, com interesse direto no que o relator decide. Todos os três, na mesma sala, por três horas, fora da agenda oficial.
Uma coincidência pode acontecer. Três, sentadas na mesma mesa, começam a pedir explicação.
O QUE O SENHOR SEGREDO NÃO RESPONDEU
“Segredo.” Foi isso, e somente isso, que Alcolumbre disse quando perguntaram sobre a noite de 4 de agosto. Dezenove dias depois, o segredo virou cardápio.
O Anfitrião, até agora, escolheu o silêncio. O Senhor Segredo, até agora, repete a única palavra que sabe. O Convidado não falou. E o único que abriu a boca foi o homem que estava no prato — e abriu num despacho, não numa entrevista.
A ESCADA, DESTAMPADA
4 de agosto, noite. Três horas na casa do Anfitrião. Sem ata.
5 de agosto. “Segredo.”
10 de agosto. O líder da oposição no Senado, Rogério Marinho, avisa em nota: “quando acordos políticos passam a ser costurados na sala de jantar de ministros do STF, ultrapassa-se uma linha perigosa.” Naquele dia soou exagero.
14 de agosto. Vai ao ar a entrevista de Mendonça, gravada em 27 de julho: “Meu papel é ser imparcial.”
21 de agosto. Mendonça manda a PF apurar o vazamento no caso Lulinha e blinda a imprensa na decisão.
23 de agosto. O Globo destampa o jantar. A nota do Marinho deixa de ser exagero e vira aviso.
Coincidência nenhuma. Sequência sim.
A APURAÇÃO
Cinco pontos, e ninguém respondeu a nenhum.
Ao Anfitrião: Vossa Excelência emprestou a casa para um jantar político de três horas, fora de agenda, sendo citado no inquérito do Master. Em que jurisprudência cabe isso? Quando a toalha for lavada, quem paga a conta — o Supremo, o Senado ou a República?
Ao Senhor Segredo: Alcolumbre, a sua resposta de uma palavra virou a prova da acusação. O segredo continua guardado, ou finalmente vai à mesa?
Ao Convidado: Lula, se o filho não é assunto seu, por que o assunto era o relator do caso do filho? E se não era, por que o silêncio?
Ao Zanin: o advogado do presidente virou ministro do presidente. Em que ponto dessa carreira cabe jantar com o cliente de ontem e discutir o relator de hoje?
Ao Relator: o despacho foi bom. Agora sirva com provas, Mendonça — ou o Brasil inteiro engole essa conta em silêncio.
A Caravana de Nog seguiu o cardápio a noite toda. Tem foto, print ou convite daquela terça-feira? Manda pra gente.
O Brasil inteiro come de pé, no balcão, com o troco contado.
Eles decidem o Brasil sentados — e, desta vez, quem estava no prato assinou de volta.


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