Na segunda à noite, Michelle tapou a foto do marido: "dói esconder o rosto do meu marido". Na terça, o tribunal voltou, agora com cronômetro na mão.
Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.
Terça-feira, 22 de setembro. Brasília. Faltam doze dias pra urna. E duas peças da chapa do PL ao Senado saem do ar por ordem da Justiça Eleitoral.
Quem assina é a juíza auxiliar Gilda Sigmaringa Seixas, atendendo representações de Guto Felício, candidato do PSDB ao Senado. Daqui pra frente, o Homem do Cronômetro. Porque ele não chegou com discurso. Chegou com conta: Michelle ocupava cerca de 73,3% do tempo numa propaganda, 90% em outra e 73,3% numa terceira. A lei dá 25% pra apoiador.
A juíza tratou o limite como régua objetiva: a lei não proíbe apoiador na tela, mas o excesso desequilibra o tempo de propaganda. As peças não voltam no formato atual. Se voltarem, multa.
E O DEPUTADO VIROU FIGURANTE NO PRÓPRIO HORÁRIO
Na mesma leva caiu uma inserção de 30 segundos que era do Alberto Fraga, candidato a deputado federal. O tribunal entendeu que o espaço dele foi usado pra promover as candidatas ao Senado, que tomavam quase toda a tela e a fala. O dono do horário aparecia na própria propaganda como quem aparece em foto de casamento dos outros.
A ESCADA
Quinta, 17 de setembro: o juiz Rafael Moreira Mota manda suspender a propaganda de Michelle com a imagem de Jair Bolsonaro, a pedido da campanha de Erika Kokay (PT). Pro juiz, a peça passava ao eleitor a ideia de apoio de Bolsonaro, o que esbarraria numa determinação do STF. Multa de R$ 5 mil por dia se reprisar.
Segunda, 21: a defesa recorre, e a campanha chama a proibição de "perseguição absurda".
Segunda, 21, à noite: vídeo. Michelle segura uma foto do marido junto ao peito e cobre o rosto dele.
Terça, 22: mais duas decisões. A chapa, agora, cortada no segundo.
PRIMEIRO PROIBIRAM O ROSTO. AGORA CONTAM OS SEGUNDOS.
Olha a sequência. Primeiro tiraram a foto. Depois tiraram o tempo. Depois tiraram o horário do aliado. Uma decisão pode ser regra. Três em cinco dias, na reta final, é cerco. Né?
Aí o eleitor do DF liga a TV no horário gratuito e não vê a propaganda que a campanha fez. Vê a que o tribunal deixou passar. E horário eleitoral é isso: o único lugar onde o candidato fala com você sem filtro de ninguém. Sem filtro. Até agora.
O QUE NÃO APARECE NA TELA
Agora apaga a luz e presta atenção no tabuleiro.
PT e PSDB não se bicam em nada. Mas os dois entraram pela mesma porta: o tribunal. Ninguém tá tentando derrotar Michelle no debate. Tão tentando derrotar no relógio. Cada segundo cortado é um segundo que ela não fala com o eleitor. E no horário eleitoral, segundo vale voto.
Só que o jogo tem dois lados, e o NogNews não tapa o olho pra nenhum. O PL também mexeu as peças: pendurou as senadoras no horário do deputado pra multiplicar tela. Jogada esperta. Só que esperteza medida em porcentagem não passa em régua de juiz.
Na política não existe coincidência. Existe calendário. E o calendário diz: doze dias.
Decisão ainda é de primeira instância, com recurso correndo no caso da foto. Mas o estrago na grade já tá feito.
EM CIMA DA MESA
Ao Homem do Cronômetro: a mesma calculadora vai medir os padrinhos dos outros candidatos, ou só funciona com sobrenome Bolsonaro?
À campanha do PL: se a regra dos 25% tava escrita, por que entregar ao adversário a conta pronta de 90%?
Ao TRE-DF: a régua vai ser a mesma pra todo apoiador que aparecer em peça de aliado até 4 de outubro?
Tiraram o rosto. Tiraram o tempo. Só falta tentar tirar o voto, e esse ninguém mede no cronômetro.
Eu sou Rogério Nogueira. E esse foi mais um fatídico NogNews.


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