Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.
Domingo, 23 de agosto. Meio-dia e um.
Enquanto a Band terminava de montar o cenário do primeiro debate presidencial de 2026, a assessoria de Romeu Zema soltou uma nota à imprensa. Estava fora. Justificativa: a emissora tinha adiado o debate de 16 para 23 de agosto na expectativa de que Lula participasse, garantindo "a pluralidade do encontro". Sem Lula, dizia a nota, "a alteração de data perdeu o seu propósito inicial".
Traduzindo do português de assessoria para o português do Brasil: mudaram a data por causa do outro, o outro não veio, então eu também não venho.
Guarde a palavra, porque ela é dele: propósito. Foi o candidato sem propósito que assinou a própria certidão da noite.
Oito da noite. Luz acesa. Três candidatos no palco. Três púlpitos vazios.
E aí veio a parte que a nota não previu.
NOVENTA MINUTOS E NENHUMA VEZ
Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury passaram o programa inteiro batendo em Lula e em Flávio Bolsonaro. Chamaram os dois de "fujões". Cobraram, ironizaram, encheram o tempo com os nomes de quem não estava lá.
O nome de Zema não apareceu.
Nem uma vez. Nem de raspão. Nem como piada.
Ele faltou junto com os dois favoritos e recebeu um tratamento que nenhum dos dois recebeu: o esquecimento. Lula ausente virou pauta. Flávio ausente virou pauta. Zema ausente virou espaço em branco.
Na política, faltar é ruim. Faltar e ninguém sentir é outra categoria.
O CONVITE QUE ELE NEM PRECISAVA TER RECEBIDO
Aqui está o detalhe que quase ninguém contou ao leitor.
Pela legislação eleitoral, a Band não tinha obrigação nenhuma de convidar Zema. A regra manda convidar candidato de partido com pelo menos cinco parlamentares no Congresso. O Novo não tem. Quem se encaixava na exigência era Lula, Flávio e Caiado — e só Caiado apareceu. O convite a Zema foi cortesia da emissora.
Ele recebeu de graça o que a lei não obrigava ninguém a dar. E devolveu.
A ESCADA
Março de 2026: Zema entrega o governo de Minas Gerais para disputar a Presidência. Abre mão do cargo, do palanque e da máquina.
Agosto: aceita a mudança da data do debate.
Domingo, 12h01: manda a nota e cai fora.
Domingo, 18h: Renan Santos chega ao estúdio e chama as ausências de "vergonha".
Domingo, 20h às 21h30: o nome dele não é pronunciado.
Segunda-feira: os concorrentes que apareceram amanhecem no noticiário. Ele amanhece na coluna de análise, na categoria "esquecido".
Largou o governo para aparecer. Chegou a hora de aparecer e não apareceu.
A CONTA DO TEMPO
Debate presidencial é o único metro quadrado da campanha onde o desconhecido custa o mesmo que o favorito. Domingo, a Band levou o sinal para a BandNews, a Rádio Bandeirantes, a TV Cultura, a Jovem Pan, o Estadão, a Gazeta, o YouTube e o Kwai. Tudo isso ao mesmo tempo. De graça.
O programa foi desenhado para seis. Foram três. Quem entrou no estúdio levou o dobro do tempo que teria levado numa noite normal — o dobro de perguntas, o dobro de câmera, o dobro de manchete no dia seguinte.
Zema não perdeu um debate. Ele devolveu meia hora de televisão nacional para os adversários dele.
E NÃO É SÓ ELE
O púlpito vazio virou método no Brasil de 2026.
Sergio Moro desistiu de última hora do primeiro debate no Paraná. Eduardo Paes não foi ao do Rio. Roberto Cidade faltou no Amazonas. Daniel Vilela faltou em Goiás. Lula não foi. Flávio não foi. Zema não foi.
Sempre o mesmo perfil: quem está na frente, ou quem tem medo de perder o que já tem.
Debate encolheu de compromisso para risco. E risco, na cabeça de marqueteiro, é coisa que se evita.
O eleitor virou detalhe da conta.
EM CIMA DA MESA
Ao candidato sem propósito: o senhor deixou o governo de um estado inteiro para se apresentar ao Brasil. Qual era exatamente o plano para se apresentar sem aparecer?
E ao eleitor que ainda procura alternativa: se o sujeito não enfrenta três adversários numa noite de domingo, o que ele vai enfrentar no Congresso, no Supremo e no Orçamento?
Faltam 41 dias para 4 de outubro. Na urna, o eleitor digita um número e o rosto aparece na tela.
Só aparece na urna quem já apareceu antes.
A VERDADE NÃO PEDE LICENÇA


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