Bom dia, boa noite ou boa sorte, dependendo do estrago que a esquerda fez hoje.
MORREU PRESA A UM APARELHO. E NINGUÉM CONTOU.
Rio de Janeiro. Hospital Pró-Cardíaco. 27 de fevereiro de 2026. Flávia de Medeiros Ardovino Rosa morre de complicações cardíacas. No tornozelo, a tornozeleira eletrônica. Para ir ao médico, ela dependia de uma autorização da Justiça.
Sete meses de silêncio. Nenhuma nota, nenhuma manchete, nenhum minuto de telejornal. Só em 16 de setembro a jornalista Ana Maria Cemin tornou o caso público, denunciando a demora nas autorizações judiciais para os exames, as consultas e os procedimentos de que Flávia precisava.
Flávia virou número. O número 12, segundo o levantamento de mortes entre processados pelo 8 de janeiro.
A ESCADA
9 de janeiro de 2023: Flávia é detida no acampamento em frente ao quartel-general do Exército. Não no Planalto. Não no Congresso. Não no Supremo. No acampamento, no dia seguinte.
Depois: o STF a condena por organização criminosa e incitação ao crime.
Até o último dia: tornozeleira eletrônica. Cada exame e cada consulta dependiam da caneta de um juiz.
27 de fevereiro de 2026: o coração para.
3 de março de 2026: Alexandre de Moraes extingue a punibilidade de Flávia. Quatro dias depois do enterro.
16 de setembro de 2026: o país finalmente fica sabendo.
A CANETA QUE DEMOROU E A CANETA QUE CORREU
Juridicamente, a extinção da punibilidade é automática quando o réu morre, e ninguém provou, até aqui, que a demora nas autorizações causou a morte. Mas repara na velocidade de cada caneta. Para o exame, espera. Para a consulta, espera. Para o procedimento, espera. Para encerrar o processo da morta, quatro dias.
A Justiça que não teve pressa para deixar Flávia cuidar do coração teve toda a pressa do mundo para fechar a pasta.
O QUE NINGUÉM ESTÁ VENDO
Agora afasta a câmera, porque a pergunta não é só como Flávia morreu. É por que ninguém soube.
Uma mulher condenada pelo Supremo morre sob medida cautelar do Supremo, e a notícia leva sete meses para sair. Não foi o tribunal que avisou. Não foi o governo. Não foi a imprensa que cobre Brasília todo dia. Foi uma jornalista independente, cavando.
Quando uma morte dessas some por sete meses, não é distração. É conveniência. Porque cada Flávia que aparece bagunça a narrativa. E a narrativa precisa de golpistas, não de mulheres de coração doente esperando autorização para fazer exame.
Doze mortes. Todas com o mesmo carimbo. E cada uma chegou ao público como chegou a de Flávia: tarde, pequena e escondida.
SHEHERAZADE
Deixem-me dizer uma coisa antes que alguém distorça: quem quebrou o Supremo, quem destruiu o Congresso, quem depredou o Planalto tem que pagar, e pagar caro. Lei é lei. Pena é castigo, pena é consequência, pena é a resposta do Estado ao crime. Mas pena não é sentença de morte, e tornozeleira não pode virar corda no pescoço de ninguém.
Flávia não estava no Palácio. Flávia estava no acampamento, no dia seguinte. Foi presa, foi processada, foi condenada, foi vigiada, foi esquecida. E morreu. Morreu esperando uma assinatura, morreu esperando uma autorização, morreu esperando que alguém em Brasília lembrasse que do outro lado do processo havia um coração batendo.
Aí o exame não sai. Aí a consulta não é autorizada. Aí o procedimento fica para depois. E o depois, para Flávia, não chegou.
Sigam meu raciocínio. Se o Estado prende, o Estado responde. Se o Estado vigia vinte e quatro horas por dia, o Estado sabe quando a pessoa adoece. Então por que ninguém soube quando ela morreu? E a quem serve um silêncio de sete meses?
É claro que vão dizer que foi fatalidade. Que o coração era fraco. Que o processo seguiu o rito. Lógico, né? O rito sempre segue. A vida é que não espera o rito.
Será que o excelentíssimo ministro dormiria tranquilo se a mãe dele precisasse pedir licença a um juiz para fazer um exame do coração? Será que ele aceitaria esperar a autorização no corredor? Ora, deixem de hipocrisia. Coloquem-se, ao menos uma vez, no lugar da família.
Punibilidade extinta, diz o despacho. Extinta a punibilidade. Extinta a Flávia. E o tribunal que falou tanto em defesa da democracia só lembrou dela para arquivar o processo.
Até quando?
Eu sou Rogério Nogueira. E esse foi mais um fatídico NogNews.


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